O legado de Donald Shoup na batalha dos estacionamentos
A contribuição da vida e obra de Donald Shoup é fundamental para entender os problemas dos estacionamentos nas cidades.
Paralelamente à diminuição dos incentivos atuais ao transporte motorizado individual, os espaços públicos devem ser integrados ao dia a dia dos brasileiros em vez de serem apenas destinos de lazer em horários específicos.
31 de outubro de 2017Em 2015, o Parque Ibirapuera em São Paulo foi eleito o melhor parque do mundo pelo jornal britânico The Guardian. Uma série de características do parque serve de exemplo para outras cidades, embora devamos ter cuidado no seu uso como referência.
O Parque Ibirapuera é um caso de sucesso por vários motivos. O parque oferece um local para atividades diferentes, desde espaços de permanência ao ar livre até quadras esportivas e quiosques comerciais, lanchonetes e restaurantes, além de espaços culturais como o Museu de Arte Moderna, o pavilhão da Bienal, o Museu Afro-Brasileiro, entre outros. Há uma concorrida agenda de eventos de temas variados, tanto no Auditório do Ibirapuera quanto ao ar livre. O espaço é bem sinalizado, bem iluminado à noite e conta com uma equipe de limpeza e jardinagem que faz um trabalho constante. Mobiliário urbano, como bancos e lixeiras, é fácil de encontrar. O parque tem vigias em todos os portões de acesso e abriga uma unidade da Guarda Civil Metropolitana, assim como várias estações policiais móveis. Essas características são todas exemplares e o caso mostra que, para gerir um grande parque de sucesso, é necessária a integração de vários serviços municipais de forma a prover a infraestrutura e manutenção necessárias.
No entanto, o Ibirapuera é um grande parque ilhado entre três grandes avenidas e é difícil dizer que ele faz parte da rotina diária do paulistano, sendo um destino principalmente durante os fins de semana; seu acesso se dá principalmente por transporte motorizado. Diferente de praças de Londres, que surgiram espontaneamente com o desenvolvimento da cidade e são pontos de encontro distribuídos no dia a dia urbano, o Ibirapuera concentra espaços verdes de São Paulo. Isso diminui não apenas o uso do espaço mas também a frequência, já que o acesso em dias comuns é difícil para os que não moram em sua proximidade.
O Ibirapuera também é cercado, o que vai contra a lógica do espaço público e às boas práticas de acessibilidade recomendadas pelo Project for Public Spaces, instituição líder em boas práticas na gestão de espaços públicos. Cercas podem ajudar na manutenção do espaço interno, mas geram focos de insegurança, principalmente nas calçadas e nos espaços públicos do lado de fora da cerca.
As cidades tendem a realizar grandes projetos de criação de espaços públicos que deixam de levar em consideração essas pequenas nuances que geram um espaço público de qualidade. Uma estratégia a ser seguida é identificar os parques existentes, desde as pequenas pracinhas, e identificar quais dessas características positivas estão faltando, pensando como reintegrá-los ao meio urbano de forma a possibilitar o uso diário do cidadão.
A sustentabilidade econômica desses espaços pode ser alcançada através de programas de adoção de espaços públicos já em voga em diversas metrópoles brasileiras. No Rio de Janeiro, por exemplo, tal modelo economiza cerca de 12 milhões de reais dos cofres públicos. Exemplo de sucesso recente foi a praça Victor Civita em São Paulo, que revitalizou área abandonada com solo contaminado, devolvendo a área para a população com espaços de qualidade. Prefeituras devem potencializar esse modelo de forma criativa, indo além da tradicional manutenção de canteiros e do plantio de árvores. A exemplo do Parque Ibirapuera ou, a partir de exemplos internacionais como os cafés na Russel Square ou no Hyde Park em Londres, também é interessante permitir a exploração comercial de pontos limitados dentro de espaços públicos, de forma a potencializar o uso do espaço e incentivar uma misturas de públicos em diferentes horários do dia.
A criação de novos parques deve ser criteriosamente planejada, pensando não apenas nos aspectos qualitativos espaciais, mas também na viabilidade da sua manutenção a longo prazo e no custo de oportunidade do uso de tal espaço para outras funções, como o próprio desenvolvimento imobiliário de novas unidades de moradia.
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COMENTÁRIOS
E quanto a ideia de privatizar o que vcs pensam sobre?
Oi Vivian, obrigado pelo comentário! Não sou contra a concessão da operação de espaços públicos dentro de determinadas diretrizes, semelhante ao que a Prefeitura de São Paulo está fazendo. Quanto a privatização pura, entendo que pode haver casos de espaços públicos mal inseridos no ambiente urbano, ou em zonas onde há espaços públicos demais (sim, é possível, como o nosso caso emblemático de Brasília). Nestes casos me parece razoável pensar em uma privatização.