Favela Xpress: reconectando comunidades ao comércio
As compras online já fazem parte do cotidiano de muitos brasileiros. Porém, nas favelas as entregas têm limitações importantes. Para resolver esse problema, foi criada a Favela Xpress.
Confira a entrevista com uma das maiores referências do urbanismo sobre suas principais ideias e seu livro "Ordem Sem Design".
11 de agosto de 2025Alain Bertaud é aquele raro urbanista que leu um livro de economia. E cinco anos atrás, escreveu seu próprio livro sobre a economia das cidades: “Order Sem Design: Como os Mercados Moldam as Cidades”.
A obra gerou uma grande repercussão entre urbanistas: o planejamento urbano, por definição, parte do princípio de que a ordem nas cidades é resultado dos projetos e dos planos. É quase um artigo de fé acreditar que urbanistas moldam as cidades. A sugestão de que outras forças possam, na verdade, ter predominância foi vista como heterodoxa, senão herética.
Ao longo dos anos seguintes, no entanto, à medida que as crises habitacionais nas principais cidades norte-americanas se agravaram — apesar do número crescente de planos e de urbanistas —, alguns passaram a revisitar o trabalho de Bertaud.
Hoje há um entendimento muito maior entre os próprios urbanistas de que a moradia é cara nessas cidades porque simplesmente não há habitação suficiente — e de que essa escassez, em grande medida, decorre das regulações de uso do solo impostas pelos municípios. Essa é uma explicação econômica para a crise urbana atual, uma explicação que sugere que os mercados de fato moldam as cidades, e que são as regulações que moldam os mercados.
Leia mais: Alain Bertaud, na prática
Conversamos com Alain Bertaud sobre essa mudança de pensamento e também para aprofundar algumas das ideias centrais do seu livro.
Chris Spoke: O que te inspirou a escrever Ordem Sem Design? Quais mensagens você queria transmitir aos leitores, de forma geral, e aos urbanistas em particular?
Alain Bertaud: Trabalhei em muitas cidades diferentes — com culturas diferentes, climas diferentes, economias diferentes —, mas descobri que existiam muitas semelhanças entre elas. Observei como as regulações, que são bem intencionadas, acabam reduzindo a oferta habitacional: elas impedem transformações onde todas as cidades precisam de mudanças. Todas as cidades enfrentam crises, com choques externos, e precisam se adaptar.
Passei muito tempo em assentamentos informais ao redor do mundo. Isso me ensinou muito, porque esses assentamentos, em geral, são completamente racionais, dadas as restrições que enfrentam. Mesmo que essas comunidades pareçam caóticas e não planejadas formalmente, elas seguem princípios racionais e observáveis, como por exemplo se formar próximas ao centro da cidade, ao contrário da habitação popular construída pelo governo, geralmente em áreas periféricas. Eles têm limitações, obviamente, mas essas muitas vezes são causadas por ações governamentais. Não acredito em teorias da conspiração ou algo do tipo. Mas acredito fortemente que a incompetência e a ignorância têm um impacto que muita gente não está ciente.
Existe uma citação de Albert Hirschman sobre os fracos sendo oprimidos pelos incompetentes. Acho que é isso que acontece nas cidades, de certa forma. Muitos governos se recusam a admitir que há uma quantidade significativa de pessoas que não consegue arcar com habitação ou nem sabem o que fazer a respeito. Eles dizem: “Ah, nós vamos cuidar delas, vamos construir habitação social.” Mas nunca constroem, porque isso não é viável economicamente para o governo. Não é viável para as pessoas, mas também não é para o governo. Temos muitas ideias falsas desse tipo.
Há também outro aspecto que me chamou atenção: pessoas que gerem cidades adotam estratégias ou regulações cujos resultados são o oposto do que elas buscavam. E mesmo assim, seguem insistindo nessas políticas. Vou te dar um exemplo. Em Mumbai, dizem que não podem aumentar o coeficiente de aproveitamento porque a densidade ficaria alta demais. Mas se você medir a densidade da cidade, os locais com densidade mais alta são as favelas, que são completamente horizontais, onde as pessoas não têm recursos para construir em altura. Mumbai é uma das cidades mais congestionadas do mundo, mesmo com essa política. E ninguém se pergunta: “Será que não deveríamos rever essa política?”
Foi isso que me motivou a escrever esse livro. É como um canto do cisne, talvez, dado a minha idade. Mas achei que era o momento.
Chris Spoke: Falando em políticas que geram o oposto do que pretendiam, ouvimos muitos urbanistas — inclusive em cidades como Toronto e Nova York — dizendo que uma de suas principais metas é a acessibilidade habitacional. Claramente, o resultado de muitas dessas políticas é que essas cidades estão entre as mais inacessíveis do mundo. O que há no urbanismo que gera esse descompasso entre intenção e resultado? Se pensarmos em engenharia estrutural: se a intenção fosse construir uma ponte que não caísse e ela acabasse caindo, talvez jogaríamos a profissão inteira fora e começaríamos do zero. O que o urbanismo, em particular, está errando?
Alain Bertaud: Acho que um dos fatores é que, até pouco tempo atrás, quando comecei minha carreira, era muito difícil obter dados sobre as cidades. Não havia sistemas CAD. Para medir uma área, por exemplo, era preciso usar um pequeno aparelho mecânico. Acho que os urbanistas, em geral, se habituaram a uma abordagem qualitativa em vez de quantitativa, porque era mais fácil.
Depois, claro, há também entre urbanistas e engenheiros uma ignorância completa sobre os mercados. Eles ignoram o mercado porque o que os incomoda, por exemplo, é o fato de que o preço da terra varia.
Engenheiros ou arquitetos sabem o preço do cimento ou do aço. Como são commodities, eles flutuam. Mas não entendem por que o preço da terra varia. Assumem que é especulação — que se os preços da terra em uma cidade sobem muito, é por causa da especulação. Recentemente, estive no Brasil e vi que uma das justificativas para impor um coeficiente de aproveitamento único na cidade de Belo Horizonte era justamente essa: os urbanistas diziam que seria injusto aumentar o coeficiente no centro da cidade, porque isso faria o preço da terra subir.
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O controle de aluguéis é outro exemplo. Se os aluguéis estão subindo, impõe-se uma regra que proíbe aumentos — e os urbanistas não percebem qual será o impacto disso no longo prazo.
Acho que essa falta de instinto quantitativo e de compreensão de mercado se deve, em parte, ao incômodo que os urbanistas têm com a mudança. Muitas vezes, quando discuto políticas habitacionais em diferentes cidades, a conversa começa assim: “Bom, deveríamos ter um preço da terra e uma taxa de juros razoáveis.” Mas não existe “taxa de juros razoável” — ela depende de choques externos que nos afetam.
Chris Spoke: Um exemplo de medida qualitativa que considero vaga demais para que alguém seja responsabilizado é essa ideia de habitabilidade, certo? Ouvimos muito sobre o desejo de planejar comunidades que tenham qualidade de vida, mas um dos critérios para isso é se as pessoas podem, de fato, pagar para viver ali. E isso nem entra nessa métrica qualitativa.
Alain Bertaud: Eu culpo os urbanistas e prefeitos. Existe um apoio político para que a cidade não mude. Há muitas pessoas já bem estabelecidas nas cidades que veem qualquer mudança — seja no sistema de transporte, na altura dos edifícios, no uso do solo — como uma ameaça ao que já estão acostumadas. É uma forma de conservadorismo. Acho que muitas regulações, na prática, respondem a essa demanda por atrasar ou prevenir qualquer mudança. Há uma base de apoio para isso. Não se trata apenas de ignorância de mercado, vai além.
Além disso, eu acho que, em economias abertas, há uma ilusão quanto ao direito de propriedade, onde praticamente qualquer pessoa pode te processar por desenvolver algo no seu terreno, alegando sofrer um enorme impacto negativo. Vi isso recentemente em Nova York, no caso da torre residencial na 200 Amsterdam Avenue, em que uma das objeções era que ela “não condizia com o caráter do bairro”, o que é um conceito extremamente vago.
Chris Spoke: É justo dizer que seu livro é, em parte, uma crítica ao planejamento urbano convencional. Apesar disso, o livro foi, pelo que percebo, muito bem recebido e bastante influente entre urbanistas. Como você vê essa reação, tanto de urbanistas individualmente quanto da profissão como um todo?
Alain Bertaud: A recepção foi relativamente positiva, sim. Alguns ficam na defensiva. Em vez de olhar para os resultados, dizem “se fizermos o que você propõe, os incorporadores vão lucrar muito”. Eles não percebem que os incorporadores são apenas intermediários entre eles e o produto final. O que poderiam criticar com razão seria o tipo de produto que os incorporadores estão colocando no mercado, mas eles param na figura do incorporador, o que, na minha visão, é irrelevante. O importante são os resultados.
Quando falamos sobre política habitacional, discutimos forma construída na arquitetura, caminhabilidade, habitabilidade, mas quase nunca se fala em acessibilidade. Da mesma forma, no planejamento do transporte há muita discussão sobre ruas completas (que atendem diferentes modais), redistribuição do espaço viário — todas essas coisas que focam em qualquer variável menos esta: as pessoas vão conseguir chegar ao trabalho mais rápido ou mais devagar?
Há outro aspecto que me chamou atenção, especialmente ao estudar o zoneamento de Nova York: há um número imenso de regulações detalhadas sobre a arquitetura dos edifícios — o tamanho dos banheiros, a direção de abertura das portas. Tudo muito específico. Mas não há quase nada sobre o desenho das ruas e do espaço público. Isso é completamente negligenciado. Os urbanistas não estão interessados no espaço público, se interessam mais pelo que é privado.
Isso vale, inclusive, para os parques. Muitas cidades medem o número de metros quadrados de parque por pessoa. Mas o desenho é tudo em um parque. Não é só sobre quantidade de área. É sobre o parque ser bom, bem projetado, bem utilizado. Alguns parques nunca são usados. O projeto é muito importante.
Chris Spoke: Você também escreve que é importante considerar uma restrição importante que os urbanistas têm, que é a política. Os planejadores atuam dentro de um paradigma onde qualquer proposta precisa ser aprovada por políticos, que, por sua vez, dependem de votos de pessoas que talvez não queiram mais adensamento na sua vizinhança, ou mais tráfego em sua rua. Um exemplo claro disso, em Toronto, é a tendência recente, impulsionada pela gravidade da crise habitacional, de transformar shoppings e centros comerciais em projetos de alta densidade e uso misto. Os urbanistas, com razão, nunca aproveitam essas oportunidades para criar novos bairros de casas unifamiliares, mesmo que esse seja o padrão predominante.
Vemos que nesses casos, onde há uma “folha em branco”, os urbanistas estão apostando no uso misto, na alta densidade, respondendo melhor ao que o mercado está pedindo.
Alain Bertaud: Sim.
Chris Spoke: Com isso em mente, como você pondera seu otimismo e pessimismo quanto à possibilidade do planejamento urbano se atualizar e incorporar os insights que você compartilha?
Alain Bertaud: Acho que ideias são importantes, e compartilhar ideias também. Vi isso em diversos países onde a imprensa assume uma postura séria diante desses problemas e tenta cobrir até os aspectos técnicos, buscando popularizar os debates. As ideias não devem circular apenas entre tecnocratas como eu — elas devem ser explicadas.
Essas ideias levam tempo, mas acabam penetrando, como a água que se infiltra no solo e reaparece na primavera. Então eu sou razoavelmente otimista quanto a isso. Já observei mudanças. Na minha última visita ao Brasil, passei por quatro cidades diferentes, reunindo-me com prefeituras, urbanistas, setor privado e universidades. Percebi que muita gente está aberta a essas ideias. Eles diziam: “Tentamos uma abordagem diferente, não funcionou. Vamos tentar outra coisa.” Acho que esse é o espírito certo.
Chris Spoke: Outra tendência positiva é o crescimento do movimento YIMBY (Yes In My Backyard, ou “sim no meu quintal”), formado majoritariamente por jovens que defendem as cidades. Eles entendem que uma cidade deve ser uma cidade — não apenas um bairro suburbano. São pró-crescimento e, em geral, mais alfabetizados economicamente do que muitos que comentavam sobre as cidades no passado.
Alain Bertaud: Podemos ver também o surgimento de novas coalizões, com pessoas genuinamente preocupadas com moradia para os mais pobres, e que percebem que construir mais habitação social não é a solução. É preciso, sim, construir algumas unidades para pessoas em situação de rua, ou com alguma condição de incapacidade. Mas isso não deve ultrapassar 3-4% do estoque total de moradias.
Em Nova York, quando falamos sobre “habitação acessível”, normalmente nos referimos à habitação subsidiada pelo governo. Geralmente, isso significa que é subsidiada por meio da taxação sobre a habitação “não acessível” — ou seja, de mercado. E isso faz com que a própria habitação “de mercado” fique ainda menos acessível. É uma lógica bizarra. Para mim, qualquer programa que exige uma loteria — como acontece com a habitação acessível em Manhattan, onde há 100.000 pessoas se inscrevendo para 100 unidades — não é um programa sério.
Isso é a União Soviética. Na União Soviética, a habitação era praticamente gratuita — só que era preciso esperar 30 anos por um apartamento. O aluguel padrão equivalia ao preço de três maços de cigarro por mês. Mas era preciso dividir o apartamento com três famílias por 30 anos antes de ter direito a uma unidade própria. Qualquer política habitacional que envolva uma fila com anos de espera não é uma solução séria.
Chris Spoke: Tendo sido urbanista por muitos anos, em diferentes funções e países, além dessa forma de pensar que você comunica tão bem no livro, o que você diria a um jovem urbanista que esteja lendo esta entrevista ou conhecendo seu trabalho por outros meios? Que conselhos ou ensinamentos você deixaria?
Alain Bertaud: Tente se familiarizar com todas as formas de medir as atividades de uma cidade: a velocidade do transporte, o número de alvarás emitidos, o tamanho das novas habitações sendo construídas, todas essas informações que hoje estão disponíveis. Busque se familiarizar ou construir um banco de dados, ou pelo menos conheça pessoas que saibam como construí-lo. Depois, familiarize-se com sistemas de informações geográficas (GIS) e ferramentas semelhantes. Em seguida, mergulhe no assunto e tente visitar diferentes cidades. Pessoas que vivem sempre na mesma cidade a conhecem profundamente. Sabem a história de cada prédio e enxergam a cidade como algo único. Mas não percebem que ela não é única. Na verdade, ela pode e deve ser transformada. Então esse seria o meu conselho.
Há também um aspecto que eu mesmo negligenciei no meu livro, mas que considero importante: o desenho urbano. A forma como uma rua é projetada, uma calçada, ou mesmo a entrada de uma estação de metrô, é muito relevante. O contato entre o espaço privado e o espaço público é essencial. Se você tem apenas muros cegos, sem nada, a cidade não é muito “habitável”.
Em toda cidade também há algum nível de habitação informal. Não me refiro apenas a favelas, mas a edifícios subdivididos ilegalmente. Acho que há muito o que aprender com isso. A única contribuição real para a habitação acessível voltada aos 20% mais pobres da população em Nova York veio da subdivisão ilegal de casas existentes: residências unifamiliares que passaram a abrigar quatro ou cinco famílias — inclusive com a locação de garagens e afins. Penso que os urbanistas deveriam reconhecer isso e se perguntar: “Ok, essas pessoas estão infringindo a lei, mas por que fazem isso? Elas não têm alternativa. O que poderíamos fazer para que essas pessoas tivessem acesso a um tipo semelhante de habitação, mas legalmente?”
Não seja paternalista. Esse é um problema comum entre urbanistas: eles muitas vezes têm uma boa ideia e acreditam que podem simplesmente impor essa ideia aos outros. Mas você deve levar a sério o que as pessoas estão fazendo e tentar encontrar soluções que se ajustem à realidade delas.
Artigo publicado originalmente em Urban Progress, em maio de 2025.
Para saber mais sobre outros urbanistas que, assim como Alain Bertaud, estabeleceram uma quebra de paradigmas no planeamento urbano, conheça o curso “Do Planejamento ao Caos“.
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