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Segundo pesquisa, a sinalização voltada a motociclistas não pode ser considerada a causa principal para a queda no número de acidentes na capital paulista.
13 de novembro de 2025Os acidentes de trânsito constituem a terceira maior causa de mortes prematuras no país, atrás apenas de doenças isquêmicas do coração e da violência interpessoal, segundo a Secretaria Nacional de Trânsito. Os motociclistas são as principais vítimas, considerando que estão envolvidos em cerca de 70% dos sinistros e 50% das mortes. Em decorrência desse cenário, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo criou em 2023 a Faixa Azul, um modelo de demarcação de faixas com o objetivo de reorganizar o espaço viário e proporcionar mais segurança aos motociclistas.
Para analisar a eficácia da medida, o estudo “Avaliação do impacto da Faixa Azul nos sinistros de trânsito em São Paulo”, realizado no âmbito do Observatório Nacional de Mobilidade Sustentável, do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro do Insper, foi apresentado em setembro de 2025 na sede da escola. Os pesquisadores avaliaram o impacto da ação sobre os sinistros de trânsito na cidade utilizando métodos de inferência causal e concluíram que não há ganhos reais com a intervenção. “Não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre a sinalização experimental e a redução de mortes de motociclistas nas vias onde existe a Faixa Azul”, diz Adriano Borges, professor do Insper, pesquisador-líder do Centro de Estudos das Cidades – Laboratório Arq.Futuro e um dos autores do estudo ao lado de Adriano Dutra, Gustavo Theil e Júlio Mugnol.
A análise feita pelos pesquisadores combina microdados do Infosiga-SP com informações viárias do OpenStreetMap e aplica modelos de Diferença-em-Diferenças específicos de adoção escalonada para estimar os efeitos da intervenção. “Em todas as especificações, os impactos estimados foram pequenos e estatisticamente indistintos de zero. Se houve efeito, ele foi pequeno a ponto de não ser detectado”, afirma Borges. Os resultados sugerem que a demarcação preferencial para motociclistas, isoladamente, é insuficiente para reduzir os sinistros de maneira consistente.
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Durante a divulgação do estudo, os autores defenderam que as evidências disponíveis sobre os efeitos da Faixa Azul em São Paulo ainda são limitadas e baseadas em análises exploratórias simplistas. Para eles, o caráter experimental da iniciativa, que já vem sendo renovada há três anos, reforça a necessidade de uma avaliação de impacto mais robusta e imparcial antes de sua disseminação ampla e eventual aprovação definitiva pelas instâncias federais competentes.
A Prefeitura de São Paulo divulgou que o número de óbitos de motociclistas em vias com Faixa Azul caiu 47,2% entre 2023 e 2024. À luz dos resultados positivos apresentados pela gestão municipal, outras cidades brasileiras que enfrentam o desafio da alta sinistralidade entre motociclistas começaram a implantar a Faixa Azul.
No entanto, o estudo aponta que essa queda não representa uma relação direta de causa e efeito entre a Faixa Azul e a redução nos óbitos, pois algumas das vias já tinham sinalização em 2022 e 2023. Além disso, diversas ruas e avenidas só receberam a faixa após o segundo quadrimestre de 2024. Sendo assim, a variação entre os anos não pode ser considerada indicativa da eficácia da intervenção. “Ciência se faz com dados; política pública tem de ser feita com evidências”, sublinha Borges.

O pesquisador do Centro de Estudos das Cidades do Insper avalia que a Faixa Azul não é uma política ruim, já que reduz os conflitos entre veículos e organiza o trânsito. “Porém, é preciso que seja acompanhada de outras medidas, como o acalmamento da via e a redução da velocidade”, completa.
Segundo os autores do estudo, os achados não corroboram a narrativa de sucesso da medida e não há indícios de que ela deva ser incorporada ao Código de Trânsito Brasileiro até que benefícios mensuráveis para a segurança viária sejam demonstrados em avaliações robustas. Na conclusão do trabalho, recomenda-se que, no caso da manutenção do caráter experimental da Faixa Azul, sejam incorporadas medidas complementares, como, por exemplo, a fiscalização da velocidade. “Apenas a demarcação da faixa preferencial por meio de sinalização horizontal e vertical não é suficiente para causar o impacto pretendido”, reforça Borges.
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Os pesquisadores também defendem a estruturação de um sistema de monitoramento e avaliação que permita a aplicação adequada de ferramentas de mensuração de impacto causal da iniciativa, orientando a tomada de decisão com base em evidências. “Diante da urgência da crise de insegurança viária, medidas com eficiência validada na redução de mortes e feridos no trânsito são fundamentais para aproximar São Paulo da ‘visão zero’, segundo a qual nenhuma morte no trânsito é aceitável”, diz Borges.
Artigo publicado originalmente no site do Insper, em setembro de 2025.
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