O resgate da função primordial dos núcleos urbanos

4 de março de 2025

Sempre fico espantado com a divulgação de uma pesquisa, realizada todo ano, que mostra repetidamente que mais de 60% dos moradores de São Paulo gostariam de mudar de cidade. Não é espantoso que tanta gente se sinta insatisfeita na maior metrópole da América do Sul?

O famoso arquiteto dinamarquês Jan Gehl, no livro “Cidades Para Pessoas”, pode lançar luzes sobre a questão e nos fazer entender a insatisfação dos que vivem na capital paulista e em outros municípios que desprezam a dimensão humana no seu desenho e funcionalidade.

A obra vem servindo de inspiração para urbanistas e tomadores de decisão em todo o planeta na hora de enfrentar projetos de cidade que abrem mão da função primordial dos núcleos urbanos: promover o encontro entre as pessoas.

A mim me encantou uma frase, inspirada em John Kennedy (1917-1963) – que tomou posse como 35º presidente dos Estados Unidos em 1961 e foi assassinado no exercício do mandato –, muito bem adaptada por Gehl para o contexto das urbes: “Não pergunte o que a cidade pode fazer por seu edifício, mas sim o que o seu edifício pode fazer por sua cidade.”

O dinamarquês chama a atenção para a necessidade de se considerar o espaço da convivência como elemento essencial do planejamento e expansão das urbes. Temos tido muito talento para olhar a cidade em seu macro desenvolvimento, encorajando empreendimentos grandiosos e suntuosos. Também temos dado razoável atenção para o desenho na dimensão do voo, como ele diz: ruas, avenidas e espaços para a circulação maciça do transporte motorizado. No entanto, negamos prioridade para o elemento mais importante e vital no desenvolvimento de cidades sustentáveis, seguras, bonitas e acolhedoras: a escala humana. Esse pequeno foco no qual, de verdade, tudo que interessa na urbe acontece. O foco do olhar das pessoas, do estar, do ver, do ouvir e do compartilhar. 

Nesse tempo de densificação das cidades brasileiras, onde vemos surgir novos prédios todos os dias e assistimos a uma transformação de áreas urbanas, seria bom prestarmos atenção no fato de que apenas a verticalização não será suficiente para garantir uma qualidade de vida melhor, menores deslocamentos e maior oportunidade para encontros nos municípios. É preciso focar naquilo que Gehl chama de elementos de transição entre o espaço privado – o interno das casas e dos edifícios – e o espaço público. 

Os empreendedores deveriam ser obrigados a desenvolver espaços semiabertos e acolhedores, onde essa transição fosse efetuada de maneira a convidar as pessoas para ali andarem e permanecerem. Falamos de fachadas ativas, comércio, lojas e serviços e bom mobiliário urbano, como bancos, cadeiras, mesas, vegetação e tudo o mais que torne aquele novo edifício ou empreendimento um espaço acolhedor para as pessoas.

Por fim, Jan Gehl insiste numa receita que vem dando certo em diversas cidades mundo afora: incentive as pessoas a caminhar e a pedalar. A urbe que for acolhedora para esses grupos terá sempre gente nas ruas. E gente nas ruas, não carros, é o que garante a qualidade de vida, a segurança pública e a prosperidade.

Fica uma sugestão a todas as prefeitas, aos prefeitos, a vereadoras, vereadores e tomadores de decisão de uma forma geral no âmbito dos municípios: comecem a ler ainda hoje “Cidades Para Pessoas” e façam dele o seu livro de cabeceira. Vocês verão que não é difícil, nem caro, desenvolver as cidades para a felicidade das pessoas. É o que basta.

Sérgio Avelleda é coordenador do Núcleo Mobilidade Urbana do Centro de Estudos das Cidades | Laboratório Arq.Futuro (Insper Cidades)

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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