Hoje a festa é na avenida… e fora dela

6 de fevereiro de 2026

Entra o ano no Brasil, mas o ano não começa. Não até o Carnaval. A festa lota hotéis, arrecada recursos para o setor do turismo, reúne milhões de foliões nas ruas, etc.

No Rio, R$ 40 milhões serão destinados às escolas de samba do Grupo Especial pelo governo estadual. A Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) identificou uma alta de 9% na emissão de passagens aéreas internacionais para a Cidade Maravilhosa durante o período do “maior espetáculo da Terra”.

Em São Paulo, a Prefeitura contabilizou um impacto de R$ 3,4 bilhões em 2025, ano em que o Carnaval gerou 50 mil empregos diretos e indiretos e atraiu 16 milhões de foliões à cidade.

Parece que nós, brasileiros, precisamos passar por esse marco de celebração e de potência econômica para de fato iniciarmos o nosso ano profissional. Mas, em muitos bairros, a rotina de trabalho intenso se inicia com meses de antecedência ao Carnaval. As escolas de samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, movimentam diversos grupos nos territórios populares já em junho, muito antes de a avenida ser tomada, só em fevereiro. De costureiras de fantasias a passistas experientes, de curiosos a engajados.

Se os ensaios de rua e das quadras mobilizam os moradores, neles também se fazem presentes turistas e repórteres de grandes mídias nessa que é uma cobertura de destaque global. Mas o trabalho é, essencialmente, local.

Falo isso por memória pessoal. Lembro-me de visitar na infância a minha saudosa avó Auri, nas imediações do Parque Peruche, na Zona Norte de São Paulo. No final do ano, eu via e ouvia os ensaios na rua do bairro. Sandra, moradora da casa localizada dois lotes rua acima, deixava temporariamente o posto de manicure para se dedicar à confecção de fantasias que, meses depois, estariam desfilando na passarela pela Unidos do Peruche. Outros amigos e vizinhos a essa altura já entoavam o samba-enredo da escola em meio aos afazeres do dia a dia. Meu tio, integrante da bateria da Peruche, estava envolvido com as preparações para o desfile havia tempo.

A festa é nacional e até estrangeira, mas é, também, dos territórios populares. Todos merecem aproveitá-la — e há espaço inclusive para quem não queira curti-la. Por trás dos números dos governos municipais, estaduais e federal, passam trabalhadores, moradores e foliões do Parque Peruche, da Casa Verde, de Itaquera e de outros bairros das nossas cidades.

A avenida, reproduzida mundo afora pelas lentes de emissoras de televisão e jornais de grande alcance, visitada por famosos frequentadores de camarotes exclusivíssimos e tomada por rainhas de bateria também de fama inconteste, comporta essa festa de todos e para todos. Inclusive aqueles que não estão tão em evidência na contabilidade econômica ou no imaginário de turistas.

Uma coisa não exclui a outra, e as ruas e avenidas das cidades são, pelo menos em tese, democráticas. No Carnaval e no restante do ano. Não nos esqueçamos disso antes de 2026 efetivamente começar.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Doutor em Planejamento Urbano e Regional pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Arquiteto e urbanista formado na FAUUSP, cursou o mestrado em Planejamento Urbano pela Universidade de Columbia (EUA). Lá, ganhou o prêmio Charles Abrams pela dissertação com o maior comprometimento com justiça social. Também trabalhou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo entre 2014 e 2016, com atuação na urbanização de sete favelas das zonas Sul e Oeste da cidade.
VER MAIS COLUNAS