A cidade ensina

14 de fevereiro de 2025

Conhecer mais sobre a cidade é uma forma de apropriação

Em Sydney, Austrália, há um caminho de pedestres que liga as praias de Manly e Shelly. Se de um lado a gente tem o mar, do outro tem paredões de pedra intercalados com áreas de vegetação, escadas para acesso às residências que estão mais acima, bancos, bebedouros, banheiros públicos e… mini esculturas de bronze, representando animais da fauna local (dragões marinhos, pinguins, pequenos marsupiais) e personagens típicos (mergulhadores, surfistas). Estão incrustadas na rocha, de tal forma que ela é parte integrante da escultura: a rocha cobre parte do corpo do surfista, como se fosse o mar, mostrando de um lado o seu torso e de outro o seu pé. Estão ao alcance das nossas mãos, acompanhadas de placas também escritas em braile, veiculando breves informações. Um deleite para o tato e a visão.

Quando você caminha pelo Boulevard Saint Laurent, em Montreal, Canadá, nota na calçada umas linhas finas de metal que indicam a divisão entre dois prédios. Na ponta de cada linha tem uma placa metálica com a data de construção e reforma dos prédios daqueles dois lotes contíguos. Você olha para aquela informação no chão e, imediatamente, para as fachadas dos edifícios correspondentes, agora com mais atenção. Você tenta relacionar o estilo que vê com a data daquela construção/reforma. Você lê de forma mais concreta o desenvolvimento da cidade ao ver, lado a lado, um edifício de 1870, renovado em 1980, e um de 1918. Um edifício de 1905 ao lado de um de 1995. Ou um de 1865, renovado em 2004, ao lado de um de 1966. Uma ideia genial!

Em alguns bairros do Rio de Janeiro, as placas que indicam os nomes das ruas possuem, logo abaixo, uma explicação. Você descobre que 2 de dezembro, nome de uma rua no Catete, é o dia do nascimento de Dom Pedro II, e que Barata Ribeiro, que dá seu nome a uma rua em Copacabana, foi um abolicionista. Na placa da Rua Luís de Camões, localizada no Centro, está escrito “1524-1580. Poeta, considerado uma das maiores figuras da literatura portuguesa”. São pequenas pílulas de conhecimento geral que podem matar (ou atiçar) a nossa curiosidade, suscitar aprofundamentos ou, pelo menos, nos fazer questionar por que não temos mais ruas homenageando mulheres.

De volta à Austrália, a orla mais próxima do centro de Cairns não é uma praia, mas uma agradável área pública, chamada de Esplanada, que possui equipamentos de ginástica, ciclovia e mesas de piquenique numa faixa verde e arborizada, além de muitos bancos junto a um longo deck de madeira. Nele você caminha vendo o mar e percebe que, em alguns trechos do guarda-corpo, existem placas metálicas com fotos de “animais de mangue e de lama”, basicamente aves marinhas que você frequentemente vê por lá. São fotos coloridas, para facilitar a identificação, legendadas por seus nomes comuns e científicos e alguma característica marcante.

Na extensa varanda da Plataforma Rodoviária que dá para a Esplanada dos Ministérios, em Brasília, milhares de pessoas circulam e ficam esperando seus ônibus todos os dias, tendo à vista alguns dos principais edifícios da cidade. O guarda-corpo termina simplesmente com uma superfície de cimento pintada de branco. Durante meus levantamentos de campo, escutei o seguinte diálogo: “O que é aquela bola lá?”, disse uma mulher, referindo-se ao Museu da República. “É tipo um museu”, respondeu uma outra.

Imagino um artista da cidade sendo convidado a ilustrar, em relevo, a paisagem mais emblemática da capital nesse guarda-corpo, os lugares e edifícios devidamente legendados. Aquele edifício, mesmo que aquelas mulheres não o tenham visitado, passaria a ser um pouco delas.

Imagino essa e várias outras oportunidades de nossos espaços públicos informarem, contarem histórias, trazerem a cidade mais pra dentro da gente.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

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Arquiteta, professora da área de urbanismo da FAU/UnB. Adora levantamento de campo, espaços públicos e ver gente na rua. Mora em Brasília. (ceep.unb@gmail.com)
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