Eu não quero essa casa no campo

4 de março de 2025

Nos últimos anos, especialmente durante e após a pandemia, com a expansão do trabalho remoto, muitos amigos resolveram sair de São Paulo.

Alguns, mais aventureiros, aproveitaram o novo contexto para realizar o sonho de viajar pelo mundo e tornaram-se nômades digitais.

A maioria dos que se mudaram, porém, foi para cidades do interior do estado como Itupeva, Valinhos, Indaiatuba ou São Roque, em busca de mais segurança, espaço para a família e contato com a natureza.

Ainda que eu seja apaixonado por grandes cidades – e nunca tenha me passado pela cabeça trocar São Paulo, com seus muitos problemas, pela vida mais tranquila em cidades do interior –, achei que entendia a escolha de meus amigos. Isso até visitá-los em suas novas casas.

Quando me contaram, lá atrás, sua decisão de se mudar, falaram da infância, de brincar na rua, subir em árvores, andar descalço na terra, falaram que tal cidade era um charme e falaram, principalmente, de viver em um lugar mais seguro, longe das ameaças da grande metrópole. 

Era isto que queriam para os filhos: natureza, tranquilidade e segurança, o que não seria possível lhes proporcionar em São Paulo, com seus elevados índices de criminalidade e seus apartamentos cada vez menores e mais caros.

Ao visitá-los algum tempo depois, me surpreendi com o fato de que absolutamente todos eles haviam se mudado para condomínios fechados genéricos. Estava em Itu ou Vinhedo, mas poderia estar no Alphaville, na Barra da Tijuca ou até mesmo em Orlando.

“E a tal cidade que era um charme, cadê?”, perguntei para um deles. “Se tal cidade é supostamente mais segura, por que viver em um condomínio fechado?”, perguntei para outro.

É verdade que moravam em casas espaçosas, que proporcionam maior contato com a natureza, algo que, em São Paulo e arredores, sem dúvida custaria muito mais caro.

Essa maior proximidade com a natureza, contudo, também cobra um preço caro, especialmente do meio ambiente. Afinal, em um grande condomínio residencial horizontal, praticamente todo deslocamento, seja até a padaria ou a escola dos filhos, precisa ser feito de carro, o que significa alto nível de emissão de poluentes.

Além disso, nos condomínios praticamente não havia crianças pelas ruas, quase que exclusivamente ocupadas pelos automóveis – indispensáveis, uma vez que se está longe de tudo.

Esse “tudo”, por sua vez, acabou se revelando muito pouco. Ante a baixa densidade populacional e famílias de perfil muito semelhante em condomínios muito parecidos, apenas pequenos e pouco diversos centros comerciais surgem no entorno desses condomínios, limitando bastante a oferta de cultura e lazer.

“É, sinto falta da diversidade de opções de bares, teatros e restaurantes de São Paulo”, me confessou um desses amigos recentemente. “É chato mesmo precisar do carro para tudo”, reclamou outro que, com a exigência da empresa de mais dias de trabalho presencial, já planejava sua volta para a capital. Não parecia nem um pouco frustrado.

Não estou aqui para minimizar as críticas à cidade grande nem menosprezar os sonhos de uma vida tranquila no interior, em contato com a natureza. 

A vida nesses condomínios fechados, contudo, me parece mero simulacro da vida nos subúrbios norte-americanos, tão idealizada no passado, mas que se revelou não somente monótona, como também insustentável em termos ambientais – uma contradição, portanto, para quem diz valorizar o meio ambiente.

Essa vida de condomínio também em nada remete à nossa infância, quando esses condomínios quase nem existiam, as cidades não tinham tantos carros e a dependência do automóvel parecia muito menor.

Enfim, a velha ideia da fuga da cidade para o campo, entendido como elemento redentor das mazelas do meio urbano, parece carregar muito de idealização e saudosismo. Especialmente se essa fuga for para um condomínio fechado no interior.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Caos Planejado.

Compartilhar:

Economista pela FEA-USP, mestre em economia pela EESP-FGV e tem mais de 20 anos de experiência na área de pesquisas e estudos econômicos. Mora em São Paulo e caminhar pela cidade é um de seus hobbies favoritos (vitor.meira.franca@gmail.com).
VER MAIS COLUNAS